Simplesmente Ciana: O homem da Praça Seca

O homem da Praça Seca


Quem já ouviu o velho ditado popular que diz “quem conta um conto aumenta um ponto”? Pois é se aumentaram algum ponto certamente que não foi Dona Maria pois esta conta a mesma história já faz tantos anos, e mesmo com seus 87 anos a sua memória ainda não falhou. De vez em quando ela ainda fala da história para os bisnetos, alguns ficam rindo pensando ser imaginação da velhinha.

Essa história tem mais de 80 anos e se passou no bairro da Praça Seca no Estado do Rio de Janeiro, diz Dona Maria que seu pai Manoel lhe contou quando ainda era muito pequenina. Nessa época eles moravam na Praça Seca e havia poucas casas no local, não eram próximas e tinha muitas plantações, inclusive seu pai era dono de algumas junto com seu tio João. Alguns tinham criações de animais, a maioria galinhas, patos e outros de ovelhas.

Ela morava com seu pai sozinha já que sua mãe já havia falecido, e tinha alguns empregados que trabalhavam para o seu pai. Certa vez começaram a sumir algumas galinhas e todos pensavam ser algum animal que estava rondando o local, onde a vegetação natural da época era a Mata Atlântica, pensaram ser algum bicho grande, talvez até uma onça. Alguns moradores saíram para verificar o que se passava munidos com armas, mas nada encontraram.

Foi passando o tempo e outros animais de pequeno porte continuaram a sumir e o mistério permanecia, ninguém sabia de nada. As casas eram afastadas, porém a grande maioria se conhecia, eram moradores antigos da região exceto um homem que estava morando num casebre abandonado e ninguém sabia quem era, sempre calado poucas vezes o viam nas ruas de terra da região.

Todos já andavam amedrontados pois ninguém sabia o que era, as mulheres já não deixavam seus filhos brincarem nas ruas e antes de escurecer todos os moradores estavam dentro de casa, afinal como lidar com algo desconhecido. Ir à polícia? Não adiantaria pois certamente diriam que era apenas um ladrão de galinhas e não iriam perder tempo com isso. O medo era constante.

A noite os cachorros latiam muito, a criatura sempre agia no período noturno e o resultado era sempre o mesmo, pequenos animais sumiam e só encontravam algumas penas, outras vezes marcas de sangue no local. Muitos diziam que era um lobisomem pois costumavam ouvir uivos e naquela região não existiam lobos.

Até que um dia um bebê recém-nascido desapareceu. Isabela ficava sozinha em casa até que o marido chegasse do trabalho, mas como o carro quebrou, ele não chegou e ela acabou adormecendo e a criança estava já dormindo no berço. No meio da madrugada ela acordou e olhou o berço como sempre fazia e ele estava vazio, sua pequena Ana não estava.

Isabela saiu pelas ruas gritando, pedindo socorro aos vizinhos, começou a bater nas portas desesperadamente das casas mais próximas. Os vizinhos comovidos se reuniram e começaram a procurar a pequena Ana, à luz de lampiões pois a região tinha muita vegetação e precisavam descobrir o que tinha acontecido.

Ana estava deitada no berço e enrolada em sua manta rosa e simplesmente ela desapareceu sem nenhum vestígio. Enquanto os homens procuravam as mulheres ficaram com seus filhos na casa de seu José e Isabela nervosa só chorava.

Os homens entraram na mata e nada encontraram, bateram em todas as casas e nada, o dia já estava amanhecendo e Marcos o marido de Isabela chegou e sabendo do ocorrido entrou em desespero, porém se uniu aos outros em busca de sua filha. Marcos tinha uma arma pois ele costumava caçar, ele a pegou e seguiu, mas a busca foi em vão.

Já pela manhã, eles voltaram para casa de seu José para buscar suas respectivas famílias. Marcos abraçou Isabela e seguiu para a sua casa. Descansariam para depois irem à delegacia pois não tinha mais o que fazer.

Enquanto Isabela dormia a base de calmantes, Marcos ficou o tempo todo acordado, sentado na cadeira da cozinha e a arma sobre a mesa. Inconformado só falava que mataria quem pegou Ana, até que uma hora ele se levantou, beijou a testa de Isabela que ainda dormia e saiu.

Marcos foi até a casa de Mauro, seu irmão, e lhe disse que acompanhasse até um lugar pois jurou que mataria quem pegou Ana.  E Mauro mesmo compreendendo o irmão disse:
_ Marcos nós procuramos pela mata, fomos em todas as casas, Ana não está por aqui. 

Marcos insistente falou:
_ Eu vou matar aquele que fez mal a minha Ana, se você não for comigo eu irei sozinho. Vocês foram em todos os lugares, você tem certeza Mauro?

Mauro ficou parado pensando, estava ainda confuso diante de toda aquela situação, também não dormiu  pouco já que chegara de manhã e ainda com muito sono ele se lembra e fala:

_ Não! O único lugar que não fomos foi ao casebre abandonado. Lá nós não fomos, lá mora um  homem que ninguém conhece, raramente alguém vê ele na rua. Acho que só vi uma vez só.

Marcos e Mauro seguiram para o casebre que ficava perto de uma vala, local muito sujo. E Mauro bateu na porta, e Marcos ao lado dele. Ninguém atendia. Mauro bateu com força novamente, e escutou uns passos como se alguém estivesse caminhando para porta para poder abrir. E quando a porta foi aberta o tal homem estranho apareceu.

Marcos deu um tiro só na cabeça do homem. E Mauro entrou em choque e perguntou ao irmão:

_ Por que você matou esse homem? Como sabe que foi ele que pegou Ana? Você está doido!

Marcos apenas disse:

_ Eu jurei que iria matar quem pegou minha filha e eu fiz isso. Olhe a roupa dele suja de sangue, sangue de minha Ana.

Mauro como você sabe que o sangue é de Ana?

_ Marcos olha para o irmão, seus olhos pareciam duas brasas e com a garganta seca, sentindo a dor da morte de sua filha ele fala:

_ Olhe os dentes dele! Olhe! Entre os dentes estão fiapos rosa, são da manta de minha pequena Ana.

A partir desse dia não se ouviu mais uivos, nenhum animal morreu. O que era aquele homem, ninguém sabia, mas junto com ele se foi o medo que aterrorizava as pessoas. Todos diziam que ele era o lobisomem da Praça Seca.



Ciana Andrade



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26 comentários:

  1. Ciana,

    Foi um texto especial para o Halloween? :)
    Gostei! Ficou bem bacana!!!

    Beijos!
    Andréia Campos
    http://petitandy.com

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    1. Obrigada Andréia! Demorei para responder porque meu blog estava em processo de mudança de nome, domínio, aí ficou complicado mexer, agora está tudo certinho. bjs

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  2. Olá, Ciana! Vim aqui pra ver o novo endereço e encontro a mesma postagem que já tinha visitado e comentado, só que não encontrei mais o comentário aqui...
    Simplesmente, Ciana, muito bom!

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    1. Amiga com a mudança de página, todos os comentários de facebook se foram por isso você não encontrou o seu comentário. Não vou poder nem apagar a conta com o nome pilateando sonhos senão vai sumir mais ainda, eu mudei o nome da página e aí o facebook apagou tudo. Fiquei tão chateada mas fazer o que né, ou eu fazia outra página e começava do zero ou sumia tudo, mas pra mim iria permanecer, nem sabia disso agora já era.
      Obrigada, as mudanças são sutis apena o nome e a retirada do pilateando do menu, foi uma necessidade minha, eu precisava mudar. bjs

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  3. Eita, que tenso Mas adorei, gosto desse estilo suspense/terror. Você escreve super bem :D
    Abraço! :)

    Red Behavior

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    1. Eu não gosto não, mas era o desafio.rsrs Obrigada! bj

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  4. Nossa, fiquei com um medinho no final, confesso que imaginava que ele seria inocente kkk.

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  5. O título me chamou a atenção e o texto me ganhou! Gostei muito. Beijos.

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  6. Não gosto muito de contos de terror, até porque desenvolvi um medo muito estranho depois de adulta. Sei la de onde veio isso, mas procuro evitar sempre que posso.

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  7. Tava comendo as unhas já na metade do texto! Adorei! Parabéns por se colocar á prova no desafio!
    A Bela, não a Fera | Youtube A Bela, não a Fera | Fã Page no Facebook

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  8. Curti mas realmente queria saber se ele era o culpado!!! Fiquei mega curiosa e tinha certeza que ele era inocente!!

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  9. Gostei da história! Antigamente eu lia bastante textos assim, sou um pouco apaixonada por histórias de terror, você tem uma criatividade e tanto! Parabéns! :)

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    1. Eu já detesto Thamires, não vejo e nem leio coisas do tipo. Eu escrevi por causa do desafio mesmo. Obrigada! bjs

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  10. E eu aqui inocente, pensando que em desespero o pai havia matado a pessoa errada.

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  11. Caraca Ciana amei esse conto achei maravilhoso kkkk caguei com o título mas você me encorajou a entrar aqui pts ler. Parabéns lindona. Beijos enormes 😘

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  12. Eita! Que história danada de doida!!! ahaha E diferente de tudo seu que já li, adorei o jeito que contou a história e desenvolveu o enredo de forma rápida e levando à conclusão fatídica. Fiquei com dó pela Ana e os pais dela... :/
    xoxo

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    1. rsrs Diferente mesmo, foi um desafio muito legal. bjs

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